Se me acham assustador agora, como reagiriam ao saber o que guardo em minha mochila?
Se me temem agora, como lidariam com o que levo em minha bagagem?
Levo ao fundo de minha mochila o coração de minha amada, que ainda tenta alimentar o corpo que agora não mais reside, e ensopa meu casaco de sangue. Meu caminho é negro como era aquela noite em que o demônio revelou-se um anjo, mas não foi perdoado por parecer tão terrível, não foi lhe dado a oportunidade de mostrar que o medo que sentiam era só um julgamento equivocado, e então a doce voz daquela que eu amava incondicionalmente alcançou um tom amargo e cruel, e ecoou por toda a rua a negação de todos os meus sonhos, de toda a minha esperança. O anjo virara demônio novamente, gritos puderam ser ouvidos de longe, junto com uma voz triste e amarga dizendo "e que esse vazio no meu peito seja passado para você".
O dia amanheceu cinzento, a chuva limpava o asfalto que fora pintado com o vermelho vivo do sangue de uma jovem inocentemente cruel, perfeitamente imperfeita. O rastro ainda pudera ser visto, o sangue ainda caía de minha mochila, sei que logo descobrirão o corpo no meio da rua, seguirão o rastro e chegarão ao assassino, mas será tarde demais. Levarei seu coração comigo até a morte, já que levara o meu, mas ao contrário do que fez comigo, guardarei com carinho e lembrarei de cada segundo ao seu lado, sendo torturado por não ser minha e me surpreendendo com seu belo sorriso.