- - Sexo feminino. Cabelos negros, olhos verdes, 1.75 e 72kg. 19 anos, é órfã há 5 e desde então diz que ouve coisas. É só isso que sabemos.
- É o que tenho sobre ela, depois de viajar por tanto tempo. Sei que cometi um erro, mas viajar 600km de avião apenas para cumprir este acordo é loucura. Mas depois de anos sem um paciente, apenas observando outros como eu, guardas e visitantes, acho que isso é o suficiente. Me sinto um novato à caminho de sua primeira consulta, e não sei como me sentirei ao sentar numa mesa e olhar nos olhos de mais um louco, lê-lo como uma folha de caderno e setenciá-lo a vida eterna num manicômio. Não que eu seja impiedoso, mas são seres impossíveis de controlar, muitos assassinaram suas famílias sem sentir nada, outros perambulam por aí espalhando o caos, e culpando a doença. Culpam suas cabeças, mas vejo que são apenas lixo. É assim que conseguia ser frio como um bloco de gelo perante à eles, anunciava o veredicto olhando em cada par de olhos lucidamente doentios, e seguia meu caminho de novo, todos os dias, sabendo que fazia algo importante. Mas por anos me sinto apenas como um deles, todos os dias pensei em me sentenciar, não como os porcos que prendi, mas conviver com isso eternamente. Morto.
- É difícil pensar com o balançar deste velho carro, com a luz do Sol que eu não sentia na pele por tanto tempo. Eu não era violento lá, mas não podia sair de meu esconderijo e ficar exposto às feras. Mas a luz do Sol não mais me banhava há tempos, e o barulho do mundo aqui fora quase me faz derramar lágrimas. Como eu pude? Costumava me perguntar isso diariamente, enquanto pressionava minha cabeça à parede e pressionava minhas mãos às pernas. Estar sozinho é tão ruim, te faz pensar demais, e pensar te leva à loucura.
- - Então, falaram um pouco sobre você. Na verdade, pouco sabiam sobre Lorris Niechten. Essa bosta é francesa? - disse o guarda passageiro, enquanto procurava seus óculos escuros pelo carro.
- - É Louis, quem escreveu isso deve ser um idiota. O que diabos é..-
- - Eu escrevi isso, seu porco. Se eu quiser te chamar de puta, eu lhe chamarei! - me interrompeu
- Seu parceiro, que dirigia o carro, franzino e nervoso, de cabelos longos e calado, quase infartou com o soco do homem ao seu lado no painel, invadiu a pista contrária e logo voltou para o lugar, por um segundo achei engraçado, mas logo fechei meus olhos e encostei a cabeça no banco. Argh, como odeio ter que ouvir essa merda em silêncio. O brega que tocava na rádio ecoava pelo carro, rasgando meu ouvido e balançando minha cabeça. Quase não me mantinha acordado, mas ficaria muito sem graça se acordasse deitado no ombro da moça ao meu lado. É uma deles, calada e focada no banco da frente, cabelos ruivos e aparência velha, olheiras profundas e sinais de estresse. Tem algum problema com o motorista, não para de encará-lo pelo retrovisor interno..
- - Ei, dá pra ir mais rápido? Eu realmente cansei desse carro - murmurou a guarda ao meu lado. Parece incomodada, suava muito e olhava para os dois lados, em seguida para a maçaneta do carro e novamente para o espelho. Claustrofobia numa prisão? Queria vê-la numa cela de 4m².
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Louis
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