...- Não quero estragar nossa amizade..
- Já estragou. Ou achava que simplesmente ia me recusar depois de tudo que eu lhe fiz, e tudo ficaria bem?
- Olha, não fique assim, eu sei que é ruim, eu te entendo..
- Não, não entende.
- Por favor, não fique triste comigo..
- Não é só mágoa, é ódio. Acha que eu me sentiria bem depois disso? Sei que você que decide, mas depois de tudo, por quê não disse antes que não sentia nada? Depois de tanto te dizer que gostava de você, tinha que ser agora?
- Não sei o que dizer, desculpa..
- Tanto faz, vou sair daqui.
Mais tempo amando em vão, mais tempo dedicado à alguém que não merecia tanto, letras e mais letras de enormes o texto dizendo a mesma coisa, e o que acontece? Depois de me decepcionar, tenho centenas de metros para caminhar e lágrimas negras de mágoa e ódio que, por questão de vergonha e orgulho, não quero mostrá-las para todos ao meu redor. Ah, aquela que acabou de me despedaçar se chama Decy, uma adorável e traiçoeira menina da classe, a perfeita adolescente imperfeita. Dizia-se bipolar, lidava com os males da bulimia e fumava excessivamente. Usava roupas apertadas para disfarçar sua falta de corpo, a franja para cobrir seu rosto pálido e seu olhar congelava qualquer um, menos à mim, um jovem calado e calculista, sempre vestido com algo que não seja o uniforme escolar, geralmente uma cor neutra. Sempre afastado e de braços cruzados, olhando para o horizonte que a janela escondia, sempre.
A tarde chega ao seu fim, caminho pela escura e sombria Paralee Lane, a rua em que moro, que fica em Louisville, Kentucky. Estamos no inverno e as folhas que deveriam estar nas árvores agora encobrem o asfalto, tornando rua e floresta um só. Já posso ver a pequena mansão solitária da rua, sua estrutura de péssima condição denuncia suas décadas de construção, as escadas rangem enquanto subo em direção a porta, onde está minha mãe, vestida para dormir e espiando por cima de seus ombros o fim da rua, onde fica o sanatório de Warvely Hills, já abandonado e camuflado pela vegetação. Passo por ela sem lhe direcionar o olhar, subo as escadas da sala e chego ao meu quarto, não há nada que eu preciso fazer hoje, espio rapidamente pela janela, onde consigo enxergar perfeitamente o pátio externo do sanatório, que sempre teve a fama de assombrado..Semana passada vi algo passando por lá e quase não consegui dormir pensando naquilo, que se misturava com ela, que era tudo em que conseguia pensar nessas noites frias, até jurava que o vulto que vi passando lentamente pelo pátio era ela.
Todos já foram dormir, as nuvens tomaram os céus, impedindo que a lua ilumine a janela, se não fosse pela lanterna, estaria muito escuro. Aqui estou, sem dormir, como sei que ficarei por semanas até que a névoa cubra minhas memórias, meus pensamentos, enfim, tudo que me lembre ela. Andar pelo quarto e esmurrar o colchão já não são suficientes, pego meu caderno onde junto tudo que me faz mal e transformo em palavras, alcanço uma caneta e procuro a última folha em branco..
"Alguém dedicaria tempo e palavras para me ajudar? Minta, faça um tolo feliz até saber que nada é real. O amor é uma prévia do que a dor representa. Deite-me em minhas cinzas, me deixe esperando algo que nunca chegará. Sei que algum dia irá embora, então desejo-lhe a felicidade que nunca terei, e que eu possa morrer antes.
Escolhi um caminho a sguir sem saber onde andar, já não consigo mais voltar, fui tão longe que meu passado fora encoberto pela névoa. Você diz que meu futuro está logo á frente, mas há apenas um abismo..tudo acaba aqui?"
Ler e reler isto só torna explícito o quanto estou mal, são 2:41 da manhã e amanhã preciso ir a escola, mas isso não importa. Caminho até a janela e mais uma vez olho para o pátio do sanatório, e então ali está o vulto de cabelos longos e negros, pele pálida e olhando para a casa, mas para o primeiro andar. Bato na janela com os dedos e então chamo atenção dela, que dá dois passos em direção ao portão e acena para cá..É ela, Decy. E está me chamando..Mas não queria falar com ela agora, talvez seja pior para mim. Aceno de volta e deito na cama, meus olhos estão pesados e...
Lá se vai maus um dia. Enquanto estou deitado, crio meu roteiro e então, após a madrugada sempre fria daqui, acordo com outros planos, com a mente diferente. Já cansei desta oscilação em minha mente, depois de tudo que já aconteceu, acho que não há muito o que fazer a não ser apenas deixar que termine. Sempre pego-me pensando se uma queda daqui seria fatal, e estranhamente reconfortante ficar no meio da passarela por horas, apenas observando a bela paisagem que esta terrível cidade me dispõe. Passo a manhã toda vendo seu rosto, todos os dias torturando-me, clamando por atenção de modo patético, apenas tentando me soltar deste galho que me impede de desaparecer neste abismo criado por mim mesmo. Será que ela se importaria se soubesse que é o único sopro de vida em mim, como um galho que mantém uma única folha ao seu topo no inverno? Droga, aqui estou eu de novo relacionando você aos meus pensamentos..
Os dias passam sem que eu sinta, novamente encontro-me sentado à cadeira, no meio de aleatórios com quem estudo à 3 anos, mas nunca me preocupei em conhece-los..
Esta noite a cama parece tão confortável, depois de tanto andar eu realmente consegui ficar cansado, apesar de ser bem preguiçoso e nada fazer na vida, haha. Me sinto desanimado por não ver a Decy na escola desde que ela vêm aparecendo naquele pátio, o que ela anda fazendo ali?
Hoje é dia 12 de Dezembro, meu aniversário. Me sinto estranho por ter me esquecido do meu próprio aniversário, mas antes de ir para a escola vi de novo ela acenando em direção a minha janela, lá do mesmo pátio do sanatório. Apesar de ser assombroso, me traz felicidade ver ela ali, depois de tempos sem ver seu rosto pessoalmente. O que será que está acontecendo? Tenho que libertar-me disso, já que hoje só me lembrei que faço 17 anos depois que abri a porta de minha casa e encontrei toda uma festa preparada para mim, e ainda perguntei à minha mãe qual era a comemoração..patético.
Acho que ainda tenho o número dela por aqui. Abro um caderno antigo e coberto de poeira, e então cai uma foto dela, sorrindo para a câmera. Por alguns segundos encaro a foto caída no chão e uma lágrima cai, recolho a foto e alguns papéis que estavam ali dentro, que são textos que costumava escrever pensando nela, mas estão todos estragados, o papel fora destruído e as palavras, de lápis, estão tão enfraquecidas que não é mais possível ler nada. Enfim encontro o número dela, pego o celular e disco um por um, lentamente ponho no ouvido e sou atendido. É a mãe dela, com uma voz rouca e debilitada, perguntando quem é. Por uns segundos paralisei, e então comecei a falar com ela:
- Olá, aqui é o amigo da Decy, o Clair, lembra-se de mim?
- Sim, o que quer?
- Ela está por aí?
- Por quê você faz isso? - Pergunta ela, aumentando o tom da voz.
- O que aconteceu?
- Ela sumiu faz 5 dias.
- ...
Desligo o telefone e o jogo longe, acabo me arrependendo depois de não ter perguntado detalhes, e logo lembro-me que há 5 dias Decy aparecera pela primeira vez no pátio do sanatório. Preciso procurar ajuda, posso estar enlouquecendo, ou talvez ela esteja realmente lá. Mas primeiro quero saber mais sobre o sanatório, dizem que ele é assombrado e traiçoeiro. Não acredito nessas coisas, mas sou um ser humano comum, e todos temos medo do desconhecido..
Alguns minutos navegando na internet e ignorando creepypastas sobre o sanatório, enfim encontro uma análise séria de um especialista, dizendo:
"Ao longo dos anos, o sanatório acolheu centenas de pessoas, a maioria não sobreviveu ao que ficou conhecido como a “Praga Branca”. Estima-se que mais de 60 pessoas morreram naquele hospital.
É muito freqüente verem-se sombras a passar sem que haja alguém que origine essas sombras.
Consta também que no quarto 502, uma enfermeira em depressão com todas aquelas mortes cometeu suicídio, atirando-se da janela. Diz-se também que uma outra de nome Mary Hillenburg, se enforcou. Há, no entanto quem diga que ela foi assistida no enforcamento. Ela estaria grávida de um dos médicos e terá sido vítima de um aborto mal sucedido. Ela foi encontrada enforcada num dos canos do 5º piso. Mais tarde foi também encontrado num poço o feto resultante do aborto. "
Nossa, eu não entraria aí, mas preciso ver se encontro algo, amanhã, de manhã, óbvio, irei lá.
13 de Dezembro de 2012, 06:58, meus pais estão desmaiados na cama, beberam bastante no dia anterior. Equipado com um lampião, uma lata de querosene para ligar a lanterna, uma planta do sanatório, alguns antibióticos e a foto da Decy, dou uma última olhada pela janela, procurando algo que me faça desistir dessa loucura, vejo ela o pátio, acenando e chamando-me. Direciono-me até a porta e saio de casa. A rua está deserta, a ventania agita as folhas que caíram das árvores como acontece no inverno, a estrada desaparece com a quantidade de folhas e o sanatório é logo em frente, é melhor eu ir andando..
Estou no portão, que antes era um cadeado trancando o portão agora é uma entrada. Parece que tudo foi arrancado pelo vento, mas com que força? A enorme porta dupla do sanatório esta entreaberta, e então na janela da esquerda Decy aparece, diz algo e volta a sumir. Corro até a porta e, por um impulso, enfim entro no sanatório. Há um corredor pouco iluminado pelo sol, o fundo do corredor é totalmente escuro, parece haver uma porta ali, como nas paredes envelhecidas dos lados. Há sangue no que parece ser a porta que dá acesso ao cômodo em que eu vi ela pela janela. Já que estou aqui, sigo em frente. Empurro a porta vagarosamente, a janela ilumina um pedaço do cômodo, mostrando o carpete manchado de sangue, dezenas de facas sujas e um corpo pálido e todo cortado, dá para sentir o peso de sua respiração e parece tentar gritar, mas não há voz. Me aproximo e então vejo que é a Decy. Nua, com o corpo e rosto cortados e os olhos vendados. Estou em choque, não conseguia me mexer até que ouço sua voz, enfraquecida e rouca, dizer: "Ele...ainda está..."
- Onde? - Pergunto
- Clair..é...você?
- Sim. Acalme-se, tirarei você daqui.
- Não devia estar aqui. - Diz ela, agora em um tom alto e um sorriso maligno no rosto. - Ele está aqui, doutor. - e então ela desaparece na sombra, o ar fica denso e frio e parece que ouvi o som de portas se trancando.
Receoso e temeroso, já passei pela porta que me levou ao corredor principal, no fundo há um balcão de recepção, mas não há como ver além dos vidros totalmente cobertos de poeira. O frio torna-se um fardo, parece que andei nú na época de nevasca de Dezembro. Já verifiquei a saída e está totalmente vedada..Mas como? Esmurrei a porta até deixá-la pintada de vermelho, o sangue pinga de meu punho e sinto a ferida congelar, parece que fica cada vez mais frio. Já me conformo se não conseguir sair daqui e fazer parte da sombria história do Sanatório de Wervely Hills.
Ouço vozes me chamando por todas as portas, há uma luz que reflete no vidro do balcão e ofusca minha visão. Talvez seja uma saída.. Aliás, preciso me movimentar antes que que tudo congele, apesar de apenas desejar morrer aqui, ao invés de descobrir o que há nesses cômodos.
Passo a passo, com uma barra de ferro em mãos e pronto para uma luta, vou caminhando vagarosamente em direção ao balcão, até que enfim passo pelo vidro. Ali dentro encontro alguns ossos, que poderiam ser antigos, mas estão cobertos de carne em decomposição. Há algo aqui e não vai ser muito legal comigo, é melhor eu encontrar uma saída, já que essa luz nada mais é que uma lanterna ligada, direcionada para um distintivo da polícia, que refletira nos espelhos e iluminava parte do cômodo. Assim que retirei a lanterna, tudo ficou escuro e uma brisa fria invadiu o local, atravessando minha pele congelando-me. No fim do corretor, atrás do balcão, há uma entrada, coberta por teias e com a porta no chão, suas dobradiças foram arrancadas. Direcionei a lanterna para lá e, entre as teias, há uma mesa longa, centrada no cômodo. As paredes, surradas, eram diferentes das portas, que eram brancas e totalmente novas. Enquanto caminho entre a mesa e a parede, observo dentro dos quartos, todos igualmente brancos, com paredes e chão acolchoados. Parece que anoiteceu, já não consigo mais ver além do que a lanterna me possibilita, dormir aqui será terrível com todo esse barulho. O ambiente aqui é totalmente diferente, agora sinto como se estivesse queimando. Os relógios da parede marcam, igualmente, 3:52. O relógio de pulso que encontrei também marcava o horário, mas, em meu celular são 2:35..Enfim, agora é melhor caminhar até o outro lado da sala, mas é estranho, parece que não há fim aqui, não consigo ver o fundo do cômodo. e as portas parecem ser sempre as mesmas.
São 2:52, estou andando em direção ao outro lado do cômodo até agora, meus pés me impedem de prosseguir. O relógio desperta, causando um barulho enorme, como se não fosse eu o alvo do aviso. O relógio de pulso que encontrei agora marca 60:00, e começo uma contagem regressiva. Neste momento, a lanterna começa a falhar e, atrás de mim, perto da porta de onde entrei, abriu-se uma porta branca, a primeira. Olho para frente e o outro lado parece impossível de alcançar.. Olho por cima de meus ombros para a outra direção e por um segundo crio coragem e projeto-me para trás, mas hesito e paro, ali fico sem decidir o que fazer..
Continua..