terça-feira, 5 de junho de 2012

ZERO

Estava de saco cheio, aos plenos 16, sou tratado como um idiota, sem futuro, claramente ignorado, totalmente desmotivado. Agora todo o investimento é no meu irmão de 12: um completo imbeil, traja roupas chamativas demais, é apenas esperto, mas nem tanto, estuda em escola pública e vem recebendo a mesma matéria à uns 3 anos, assim é fácil, não? Pois é.

As vezes desejo me livrar dele, mas não adiantaria, além de um nada, seria considerado um louco, mas é tão irritante ter que viver com ele, não ter dinheiro para ter que sustentar mais um na casa, não sobra nada! Se ao menos houvesse um jeito..
Surge então uma voz vinda do canto da sala, que era escura como os olhos de alguém sem vida..
-Olá..
-Quem está aí? - perguntei.
- Sou apenas uma sombra, amigo. Estou por toda a parte e posso ouvir tudo. Sabe que eles planejam te tirar daqui? Sabia que nunca gostaram de você? Eu sempre estive por perto e este é o momento certo para eu aparecer...
Interrompi dizendo:
- Sim, eu já sabia disso, sombra estúpida. Não aguento mais o desprezo, alguém como eu não merece isso, eu deveria ser especial aqui, sou muito melhor e mais importante que meu irmão, por isso queria que..
Então espero e deixo que a curiosidade tome a sombra que apenas me observa com olhos quase que invisíveis..
- Faremos assim - diz a sombra, tomando a forma de um idoso, trajando um terno e com uma maleta em mãos.
- Você terá uma semana para decidir, lhe darei este lenço. Quando decidir-se, jogue o lenço no rio ao fim da rua, no dia seguinte acontecerá um acidente e finalmente você irá se separar de seu irmão. Tome. você tem 7 dias para decidir de tudo isso e prosseguir com a vida normalmente, ou amargurar-se de sua vida pro resto dos tempos -
Peguei o lenço de sua mão fria, e então ele desapareceu e o silêncio tomou o quarto, por quê perder tempo? Vou logo jogar este lenço naquele rio.

Distraído, feliz e um pouco desacreditado até, pulei o portão de casa e entrei na rua, já podia ver o rio no fim da ladeira. O frio se fundia com minha alma gélida, a chuva tornava a rua tão escorregadia, e me sentia tão fraco, nunca havia me sentido assim. Este vento que fica cada vez mais forte parece tentar impedir que eu chegue ao rio, mas preciso chegar lá, não vejo a hora de melhorar minha vida!

Enfim cheguei no rio, não pensei duas vezes e atirei o lenço na água. Meus pés tremeram junto com a terra, algo me empurrou e caí naquela água geladíssima, tentava sair, mas parecia que a água congelara e ali fiquei preso, lutei por minha vida, até que minhas mãos congelaram. Minha vida era sugada pelo gelo que se tornara meu corpo.
Abro os olhos e reconheço o teto de meu quarto, percebo que estou envolto por meus pais, meu irmão pula na minha cama, quase pisando em minhas pernas, agora tudo parece seguro, mas sinto muito frio.
- Enfim você acordou - Esbraveja meu pai, um pouco impaciente. Antes que eu possa responder, minha mãe diz:
- Reconheço que te deixamos de lado um pouco, mas foi uma preparação. Hoje te levaremos para a faculdade mais cara do estado, todos iremos e só você ficará, irá morar lá enquanto estuda. Gastamos muito para te colocar lá, mas é porque te amamos, esperamos que você consiga um bom futuro para ajudar seu irmão com o dele. - e então interrompe suas palavras e abaixa a cabeça. - Os dias serão difíceis depois disso, teremos que passar fome para manter sua faculdade, espero que você leve à sério. -

Então meu pai termina dizendo:
- Arrume-se, iremos te levar à faculdade, todos iremos...
- Não quero ir - Meu irmão interrompe - Estou com um mal pressentimento..
- Todos iremos

Droga, o que eu fiz? Tenho que tirar aquele lenço do maldito rio!

Cheguei lá cansado, corri até a borda e o rio não estava mais ali, como!? Por quê tive que me precipitar de novo?
Em casa, já cabisbaixo, tentei convencer eles a deixar a viagem para amanhã, mas eles insistem em ir. Entro no carro com os olhos inchados, tremendo de medo, e então o carro passa à beira do rio e entra na estrada principal. Todos olham para frente, sem expressão alguma, sinto um frio que me arranca a respiração, minha cabeça dói.
3 minutos depois de entrarmos na estrada, os vidros congelam, meu pai freia bruscamente e o carro trava na estrada gélida, sinto uma presença que sussura em meu ouvido..3...2...1... ZERO.

"05/06/2012, 14:00. Jornal 1/2

Acidente na estrada principal que liga a cidade de Orenop à Bakla. Um caminhão desgovernado invade a outra pista e acerta um carro contendo 4 pessoas, matando o filho mais velho de 16 anos. O casal e seu filho de 12 anos sobreviveram sem ferimentos."

- Isto está no jornal. - A sombra me mostra a manchete, noticiando a minha morte.
- O que houve? Porque fui eu o morto?
- Eu nunca lhe disse quem merecia morrer, apenas disse que ia distanciar seu irmão de você, e agora você está longe, não é? E você merecia desde o início morrer, não acha? - Disse a sombra, abrindo um sorriso
- É, tem razão, eu mereci isso o tempo todo. E agora, o que acontece? - pergunto, cabisbaixo
- Uma vez eu era como você: egoísta, ganancioso e terrível, então uma sombra apareceu para mim, e eu também morri. Você será como eu, irá se encarregar de eliminar pessoas como você, como eu. -
Olho no espelho e detecto que não tenho mais forma, apenas sou uma sombra com uma maleta na mão.

Esse foi meu fim, eu tive que morrer para entender, e agora tudo o que faço é continuar eliminando pessoas como eu, pessoas que não merecem viver, e irão assim sofrer.
E aqui estou eu, e já que falamos nisso, eu ouvi umas coisas e...parece que deseja algo, não?

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