domingo, 27 de março de 2016

2012 shits

Todos os dias sonho com um mar de sangue, acordo assustado e caio da cama. Sem exagero, é tão intenso e real que me sinto dentro do sonho até 5 segundos após acordar. Pela quinta vez na semana, o relógio marca exatamente 6 AM, uma hora antes da minha partida, rumo ao trabalho. Com 17 anos, parece ser precocemente mas já terminei os estudos, moro sozinho,em um apartamento exatamente no centro da grande Tijuca, com uma bela bista, me sinto satisfeito por ser bem sucedido, mas sinto que me falta algo, deixar minha família em caxias foi terrível, principalmente sem ter me despedido corretamente do meu lar. Desde os 15 ficava com medo quando discutiamos antes dele sair, sempre temi que ele acabasse partindo e aquela fosse nossas últimas palavras. Há 2 meses atrás, eu que parti. Algumas coisas ainda estão em caixas e ando trocando noites por livros e textos, e quando vejo a hora, preciso sair. É estranho visualizar esta grande sala cheia de funcionários, separados por grandes divisórias. É tão diferente de quando eu estudava, cheio de vida, sonhando com isso, mas é tão diferente, estressante, me sinto preso naquela caixa de vidro, atrás de uma messa, atendendo telefonemas e dirigindo tudo a companhia, que me vende muito dinheiro, tal que não posso aproveitar, não tenho vida.
Depois de longas horas ocupado, buscando soluções para driblar a crise, que apareceu inesperadamente. Sem alguma informação sobre o motivo, deixo o local. São 29PM, bem cedo se comparar com os horários anteriores. Tive que chegar mas cedo para evitar sair muito tarde, fui assaltado algumas vezes e perdi meu carro na última semana. Hoje é o primeiro dia que saio a essa hora, pensei em um caos, congestionamento e buzinas tocando, mas a pista que me leva até a minha casa está vazia, diferente de pista inversa, que está totalmente parado, nunca havia visto algo assim, O quê aconteceu? Enfim, o potencial do cano novo e a vontade de chegar em casa e descansar é maior que a curiosidade,amanhã acabo sabendo de qualquer jeito.Cinco minutos se passaram e cheguei em casa,talvez um recorde.A rua, antes totalmente cercada e vigiada, agora encontrava-se vazia e com o portão aberto, as casas totalmente escuras e com as janelas cobertas, posso ouvir o ronco do silencioso motor do carro, de tão deserta que estava a rua.Talvez eu deveria me preocupar, mas apenas entrei na garagem, aciono o elevador e chego em casa. Ligo a tv, que informa sobre uma crise mundial, que todos deviam encontrar locais seguros e principalmente,evitar a zona sul. Logo após uma pequena pausa da repórter, a tv desliga, junto com todo a energia da casa. É, hora de dormir.

Manhã cinzenta. 6:20AM. Já vestido para sair, ainda sem energia. Sim, em todos os sentidos. Desço pela escada e entro no carro, um novo modelo com um maravilhoso ar-condicionado. Saio e o silêncio ainda toma conta da cidade,há carros nas ruas, mas abandonados, com manchas de sangue e pegando fogo. O restante da rua que me levaria até o trabalho está toda congestionada por carros desligados, abandonados. Alguns até de cabeça para baixo. Há manchas de óleo na rua e as janelas das casas comuns, totalmente vedadas. Parece que sou o único que acordou para trabalhar totalmente desinformado, como sempre... Minha mãe tinha razão, eu deveria ser mais atento.

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