sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
Capítulo 2 - "Anoiteceu"
- Para trás! Já te ouvi. Sei que está aí. Mostre suas mãoes e fale alguma coisa!- ela levava uma tocha na mão direita e um pé-de-cabra enferrujado na esquerda. Segurava-os firmemente, parecia tentar se preparar para enfrentar algum tipo de hostilidade. Parecia ter saído da cama recentemente, com uma calça de moletom dobrada até o joelho e uma camisa bem maior que seu corpo. Tremia muito.
- Responda! - ecoou pela sala. Avançou e aproximou a tocha em minha direção. Notou algo no meu rosto e aparentou acalmar-se. Lentei as mãoes e olhei para cima, ainda sem conseguir falar uma palavra sequer.
- Você entrou aqui com a gente há 5 dias, não é? - perguntou a moça, se afastando e encostando na porta, fitando o quarto com os olhos.
Então passaram-se 5 dias. Não parece possível. Não fiz nada nesse tempo dentro do quarto, não precisei. Não sinto nada. A gente?
- A gente? Então tem mais alguém lá embaixo?
- Três. Passamos muito tempo bloqueando a porta da frente. Agora parece seguro. Pararm de forçar a entrada há 3 dias. - A pequena moça passou por mim, inclinou-se até a janela e a fechou. O quarto passou a ser iluminado apenas pela tocha acesa em sua mão. O vento não mais entrava violentamente pelas janelas, mas invadia o corredor e atravessava a porta, fazendo com que esta batesse diversas vezes contra seu portal. Muito barulho.
- Não me lembro de muita coisa. Esses 5 dias pareceram semanas, trancado no quarto ao lado, no escuro. - Decidi levantar-me e caminhar em direção à porta. Na verdade esses dias pareceram horas apenas, pela facilidade que me levantei e saí do quarto. Foi como sair da cama após algumas horas de sono. Apesar de não me lembrar de como e quando cheguei aqui, me lembro de correr. De ouvir gritos, fogo. Um olho... Sinto o calor da tocha me acompanhando, junto de meus passos. A decoração do corretor fica mais visível, talvez pelo clima diferente de agora, além da luz da tocha. Os quadros na parede são belíssimos. Um quadro em especial está coberto de poeira. Na moldura há uma gravura em relevo, com o ano 1918 entalhado nela. Limpo o quadro com a palma da mão, de um lado ao outro, até revelar completamente a pintura. A nuvem de poeira formada me faz recuar, tossindo até a parece oposta do corredor. A moça, levantando as sobrancelhas, como se tentasse entender minha reação, leva a tocha à minha direção, depois aponta a luz para o quadro e passa a observá-lo comigo.
Um casal, de costas para perspectiva da pintura. Olham para o céu, por trás da casa de dois andares amarelada. Ao lado, uma bela Dama-da-noite envolta por uma decoração em flores e grama. O céu é azul, apesar de uma nuvem negra sobrevoando a casa. O casal parece estar olhando para a nuvem, com um olho no centro de sua formação. O olho não parece olhar para o casal, e sim para mim, fora da pintura. A menina ao meu lado se afasta e toma a frente no corredor, balançando a cabeça em sinal negativo. Sinto um calafrio ao perceber que estou ficando pra trás e no escuro. Essa pintura não ajudou também.
Continua.
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