sexta-feira, 13 de outubro de 2017

"Anoiteceu" - Capítulo 1

"Aqui também há solidão" "Aqui também há solidão" "Aqui também há solidão" "Aqui também há..."
Botão vermelho. Desligar? Sim.

Não há mais noção do tempo, nem espaço. No quarto, apenas o brilho da vela ilumina parte de um altar com uma foto no centro. O pano grosso cobrindo a janela não me permite saber quantas vezes o sol se pôs desde que,correndo, o coloquei lá. Lembro que contava os dias para meus dezenove anos. Apesar de todos os problemas, eu parecia buscar refúgio onde todos pareciam buscar,mesmo sem uma razão diante.Mais um ano de vida ou menos um ano de vida? Esses pensamentos me prendem por horas em dias difíceis, que eram maioria, mas agora tudo fica tão simples.Talvez se arrepender faça parte da evolução.Deveria ser satisfatório se sentir imbecil por suas decisões do passado?Afinal, isso indica que houve aprendizado. Antes sentia que não deveria ser complicado assim, que não precisava apanhar tanto. Sentia que sofri demais com as consequências, que sugavam toda a minha vontade de prosseguir. Mas agora, depois de dias sob pressão, sozinho, observando a penumbra e tendo apenas meus pensamentos e memórias ecoando na cabeça, percebo que não foram as falhas que me derrubaram. Até as grandes tragédias funcionam como empurrões para frente. As escolhas que fiz me levam a um caminho, independente do resultado.Havia uma névoa em minha mente, mas que foi formando por mim. Concluo até que o trauma é o ápice do aprendizado de um ser racional. E na controvérsia me lembro que sempre expresso dessa forma minha visão sobre qualquer assunto delicado.Sempre fui muito introvertido para ser influenciado, com isso me tornei único. Me sinto um pouco arrogante por me sentir assim, mas ao mesmo tempo me encho de energia. Talvez seja o caminho para sair daqui.

Mais algumas horas se passaram e as reflexões não mais me distraem. Até nessa situação eu fui capaz de adiar minhas decisões, mas talvez o tempo estivesse do meu lado agora. Talvez eles já desistiram de espreitar o portão. Talvez eu já possa retirar esta cortina. Talvez tudo tenha voltado ao normal. Talvez.
Fome, sede, apreensão. Até o momento apenas me levantei, caminhei sorrateiramente até a janela e espiei pelo canto do pano. É manhã. Não há movimentação nas ruas, só um rastro de sangue no portão, que terminava em uma poça em frente à porta. Sobrevivemos àquela noite. Sobrevivemos? Não estou sozinho nesta casa.

Passei muito tempo retirando os móveis de frente da porta, que dias atrás empilhei por precaução, além do que foi usado para bloquear a porta do Hall da casa. O guarda roupa desmontou-se atrás de mim após eu derrubá-lo, assim como a cadeira que bloqueou a maçaneta por todo esse tempo. Se estivessem no corredor, nada disso seguraria. Pareciam muito mais fortes que toda essa velharia. Atrás de mim, a cama desapareceu entre tantas roupas e madeira velha. Não está mais escuro como antes, afinal não preciso mais cobrir a janela e deve estar entardecendo no momento. A vela do altar se apagou mas agora é possível visualizar todo o retrato no topo de um ornamento, em moldura antiga, cercado por flores mortas e velas outras velas apagadas e queimadas pela metade. Na foto, uma senhora aparentando uns 80 anos. Ao lado, dentro da moldura, fotos em preto e branco de crianças. Cinco, olhando para o horizonte. No fundo, uma bela praia e coqueiros. Contrastando com o cenário há nuvens escuras. Parecia garoar no momento da foto. Sempre preferi caminhar sob as areias acompanhado por uma chuva fina e meus pensamentos, ouvindo o som calmo das ondas, dançando no ritmo da tempestade. Ia embora antes do arco-íris, já inspirado pelo cinza nebuloso e pelo frio. Para mim isso sempre significou apreciar a vida. Infinitamente melhor que música alta, entorpecentes e ressaca. Me sentia vivo com o simples e completamente satisfeito com a lucidez. Me desespera neste momento, assim como estaria se entorpecido, em completo descontrole, receoso em dar um passo à frente, passar pela porta e ser contemplado com o que desconheço até o momento. É interessante como não há grande diferença: antes era perseguido incansavelmente por minhas inseguranças, falta de atitude e apatia para com a vida; hoje, perseguido por coisas...físicas?

O corredor à frente é escuro. Vejo apenas a luz do Sol contra as portas dos quartos, uma à direita e outra mais à frente, na esquerda. O teto era coberto pela escuridão, sendo visível apenas parte de um enorme lustre e alguns candelabros na parede. A vagarosa caminhada até a porta entreaberta à direita prossegue, o piso de madeira velha range a cada passo. Com as mãos na parede úmida e tentando espiar o que há no quarto, empurro lentamente a porta, revelando paredes pintadas em chumbo, o que deixava o cômodo escuro, mesmo com a grande janela na parede oposta. A porta se abriu mais ,chegando até a parede e tocando-a sem violência. O som ecoou pelo quarto, invadiu o corredor e repetiu-se ali mais duas vezes. O silêncio voltou a dominar o cômodo.

Já me projeto para voltar ao corredor, buscando a porta à esquerda, esperando encontrar algo que... Meu corpo congela, o coração dispara e as pernas me fazem recuar de volta à porta. Alguém está subindo a escada. O piso me denuncia, assim como minha respiração pesada. Desisto da furtividade, entro no quarto que há pouco explorei, bato a porta e me projeto contra a parede.
Consigo ouvir sua respiração, assim como seus passos. Parece tão cauteloso quanto eu. Com tanto medo quanto qualquer um nesta situação. Também saberá que estou contra a porta, bloqueando a passagem do Sol pelas frestas do portal. ::NEW:: Sinto o calor da tocha vindo do outro lado da porta, a iluminação da chama se intensificando, indicando que se aproxima cada vez mais. Me afasto da porta, sem reação, passo por passo até o fundo da sala. Quanto tempo levarei para me virar até a janela? Terceiro andar? E se eu quebrar uma perna? Um braço? Como fugir? Não há mais tempo. A porta range alto enquanto vagarosamente abre. A janela se abre quando a empurro com as costas. Terceiro andar. Já vejo a tocha na porta entreaberta, guiada pela mão pálida, direcionada para o canto do quarto. Só me resta caminhar até o outro lado da sala, mas qualquer músculo que movo aqui fará o piso velho ranger e me denunciará. Parece inevitável.


4 comentários: