E lá estava, o céu tomara um tom avermelhado, o negro da capa escurecia todas as lâmpadas ali, sua aparição era um verdadeiro assombro, dava para sentir o cheiro do medo de todos ali, mesmo sendo um mero mortal, eu podia sentir esse cheiro. E então uma voz alta e forte ecoou sobre vossos ouvidos: - Espero que eu não tenha assustado-os, apenas busco um de vocês, aquele que fala, mas não se ouve sua voz, o que respira, mas parece morto e não parece estar entre vocês - Todos olharam para mim, sabiam quem era. Dei dois passos para frente e encarei seus olhos, vazios e ao mesmo tempo complexos, e disse: -Sou eu quem você procura.
- Você terá que escolher entre manter essas pessoas vivas, essas que por tanto tempo te julgaram, outras feriram-te, e uma pessoa em especial jogou-te em tua cova e jogou-te a pesada terra. Mas para isso, terá que entregar-me sua vida. - Disse ele, com um tom sério, mas sorrindo como se fosse divertido.
- Leve-me, não tenho nada a oferecer para este mundo, e mesmo se tivesse, guardaria comigo em meu túmulo, eles devem ter mais esperança que eu, não devem me odiar, talvez sejam a salvação da humanidade.
- Então a escolha foi feita, mas tenho outra proposta para vocês - Disse o vulto, apontando para a multidão que entrou em desespero. - Aqui invocarei uma criatura, esta é forte, mas com tantos assim, não conseguiria fazer nada. Vocês escolhem entre ficar aqui e matar esta criatura, ou deixar que ela devore o garoto e sair pela porta da frente, que agora está aberta. - E então vi todos correrem para a porta, inclusive meus poucos amigos e uma garota que me mantinha motivado neste mundo. Me ajoelhei e só esperei a criatura me alcançar, e quando ela já estava perto, pegou fogo e agonizou no chão, transformando-se de novo naquele vulto, este começou a falar: - Eu te manterei vivo, mas sei que não considerará como misericórdia, já que viu seus amigos se acovardando diante de você e a menina nem sequer olhando para trás. Agora irei embora, e apenas deixarei com você essa adaga- Disse me entregando uma adaga, cercada por uma aura negra que correu minha mão, e depois se inquietou.
- Sabe o que fazer, agora vá. -
Hoje faz 20 anos desde que conversei com ele, desde que este me mostrou a verdade, e eu matei minha sede. Ainda sinto o sangue escorrer por meus braços, aqueles rostos que já sorriram para mim agora agonizando e a vadia que tanto amei morrendo sobre eles. No fim de tudo, a adaga corroeu-me a alma. Os jornais disseram que o inferno era meu caminho final, mas aqui estou, olhando para vocês, e você pode ser o próximo a enxergar a verdade, te mostrarei o que você não consegue ver, e darei-te um empurrãozinho.
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